Executivos ”exportam” modelos de gestão

O Estado de S. Paulo – 18/02/2010

Processo de internacionalização de empresas se intensifica e aumenta desafios para gestores responsáveis por operações em outros países

Executivos habituados a aplicar no Brasil os padrões das múltis estrangeiras agora levam modelos de empresas nacionais para o exterior. Isso os expõe a desafios desconhecidos até há pouco tempo, afirmam consultorias especializadas. “Quando se trata de uma empresa brasileira levando seu know-how para fora, isso é muito novo”, afirma Cláudio Garcia, presidente da DBM, especializada em gestão do capital humano. “Até hoje o Brasil é um dos países menos globalizados do mundo, é muito fechado.”

A internacionalização de companhias nacionais tem se intensificado nos últimos anos. Em 2008, o investimento de empresas no exterior foi recorde: US$ 20,5 bilhões, segundo dados do Banco Central – cifra ainda baixa perto de países desenvolvidos.

Em geral, essas empresas são relativamente jovens, com sua gestão ainda em formação, o que aumenta os desafios para os executivos que vão defendê-las lá fora. “No momento em que a companhia começa a ser internacional, o grau de complexidade da gestão aumenta.”

É que levar para outro país o know-how e os processos de uma empresa envolve a compreensão de um sistema cujas regras são muito diferentes das nossas. “Desde a legislação trabalhista, relações governamentais, com ONGs, sindicatos, tudo é diferente do Brasil.”

Garcia explica que não se trata apenas de “exportar” um modelo. “Não é só replicar. Exige um “software mental” totalmente diferente. Isso exige capacidade de pensar, de raciocinar conforme outros cenários”, diz.

A experiência requer habilidades que vão além do “jogo de cintura”. “Só o jogo de cintura não resolve. Ele funciona no curto prazo”, diz Garcia.

Para Garcia, além das competências básicas, como dominar línguas estrangeiras e ter experiências internacionais, é necessário ter “capacidade de interagir com a complexidade, e um nível de maturidade alto”. Porém, segundo ele, esse perfil não é comum no mercado. “Não é fácil, não é simples de se obter.” Isso porque as empresas não têm preparado adequadamente seus líderes. Segundo Garcia, é necessário investir mais em intercâmbio.

Rodrigo Araújo, consultor da Korn Ferry International, avalia que a internacionalização ainda engatinha. “No nosso julgamento, estamos num estágio ainda inicial. É uma etapa seguramente importante, mas é ainda primária para o País se transformar num player global.”

Segundo ele, para avançar no processo, será necessário o executivo ter sensibilidade cultural. “É entender a dinâmica do interlocutor lá fora e como o ambiente é influenciado pelas questões culturais.” A flexibilidade e a adaptabilidade, comuns ao brasileiro, também são requeridas. “Porque a pessoa seguramente vai se deparar com situações novas e desconhecidas, e vai ter de se ajustar a esse novo modelo.”

O diretor de carreiras do Ibmec, Marcos Vono, diz que a formação acadêmica sólida “é básica”. O diferencial está na capacidade de o líder entender a cultura do outro e saber ditar regras. “Processos e recursos: isso é ciência, o bom aluno faz. Alinhar cultura e pessoas: isso é arte.”

Renata Gama

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