O pensamento estratégico frente à crise financeira global

Por Luciano Vicenzi

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Estamos vivendo uma era de profundas inseguranças no meio empresarial, provocadas pelas conjunturas da economia global. Em períodos como esses, costumam emergir, todos os dias, fatos e informações que serão utilizadas para confirmar todo tipo de previsão quanto a desdobramentos e decorrências dessa situação.

Atualmente, por exemplo, se o leitor acompanhar diferentes fontes de análise econômica verá que se torna impossível traçar uma linha comum entre elas. Há um emaranhado sem fim de considerações sobre as causas e conseqüências da crise, gerando desconfiança, medo e considerações imprecisas nas empresas, direta e indiretamente afetadas.  Mesmo quando os números no Brasil não têm confirmado as razões para tanto temor, há insegurança sobre quais medidas tomar, numa espécie de profecia auto-realizada para a retração da atividade econômica geral.

Transformações econômicas desta natureza ocorrem, até certo ponto, semelhantes a determinadas catástrofes naturais previamente anunciadas, mas sem dados concretos o suficiente para assegurar com exatidão sua data de ocorrência, podendo ser amanhã ou num futuro incerto. Sabe-se que a especulação faz parte da atividade econômica mundial. Os investimentos de risco são baseados nessa premissa. O que ninguém sabia era quando a bomba iria estourar, mas as empresas não podem ficar reféns dessa condição de total imprevisibilidade.

Neste contexto, há dois passos fundamentais para o gestor interessado em assumir as rédeas de sua empresa frente o mercado: compreender a essência do pensamento estratégico; e posicionar sua empresa adequadamente frente aos seus clientes.

 

A essência do pensamento estratégico

A primeira atitude a ser adotada pelos líderes para buscar alternativas mais interessantes ao seu negócio é afastar, o máximo possível, as abordagens emocionais negativas como balizadores de suas decisões. Medo e insegurança são fortes limitantes de um pensamento estratégico capaz de apontar direções ou reposicionamentos coerentes de mercado.

É preciso lembrar-se que, antes de crises ou de outras mudanças no ambiente de negócios, são as pessoas os principais agentes de redefinição das relações econômicas, através de escolhas pautadas em necessidades, desejos e valores.

A essência do pensamento estratégico, neste caso, é constituída pela compreensão de como a crise financeira está afetando as variáveis relacionadas ao atendimento dessas necessidades, desejos e valores, em busca de melhores oportunidades. O bom estrategista sabe conciliar o fator humano dos clientes-alvo com as lacunas de produtos e serviços e as tecnologias de execução disponíveis.

Somente a partir de uma base lógica para refletir e analisar o atual cenário é que ganha importância a observação de como os movimentos tecnológicos, políticos, legais, financeiros e sociais afetam e afetarão os critérios de decisão das pessoas e empresas quanto às suas opções de compra. Caso contrário, o excesso de informações gera ainda mais insegurança e, em conseqüência, a paralisia ou o disparo de ações em várias direções, sem resultados satisfatórios.

Mesmo tendo foco no cliente, uma vantagem sobre muitas empresas brasileiras ainda focadas no processo, o estrategista ainda não atento à essência do pensamento estratégico tem dificuldades em posicionar a empresa de maneira coerente no mercado ou em escolher as melhores ferramentas para traduzir sua estratégia em ações, simplesmente porque não sabe “colocar o dedo em cima do essencial”. Não consegue conjugar adequadamente as variáveis ambientais críticas externas e internas, falhando em definir em quais competências organizacionais necessitará ter excelência para ser bem sucedido, menos ainda em como conjugá-las com os potenciais internos já disponíveis na organização.

A amplitude do pensamento estratégico facilita, além da adoção de abordagens mais positivistas para a empresa, a ampliação da visão sistêmica do cenário no qual se encontra, mesmo durante crises globais como a que estamos vivendo hoje. Saber compreender a questão é o primeiro grande passo para encontrar a resolução adequada.

A escolha adequada do posicionamento estratégico

O segundo passo é prestar atenção máxima às ansiedades de seus clientes, procurando posicionar uma proposta de valor facilmente percebida por eles como fonte de confiança para suas inquietações. O fator confiança dinamiza as relações comerciais.

O melhor posicionamento estratégico é aquele capaz de atender ou superar as expectativas dos clientes na materialização das suas necessidades e desejos, quer seja através de soluções agregadas a melhorias de performance, quer seja por inovações relacionadas ao design da experiência de compra. Tom Kelley, um dos principais especialistas mundiais no tema, define design como todas as etapas percorridas pelo cliente na aquisição de um bem ou serviço. No atual momento, esse design deve oferecer segurança.

A base para o melhor posicionamento estratégico no mercado, então, requer dos estrategistas a compreensão de como traduzir as inseguranças e desejos de seus clientes em uma proposta de valor, de maneira clara o suficiente para ser facilmente percebida pelo cliente e, ao mesmo tempo, para ser compreendida por todos na organização, de maneira a facilitar a sua execução. Caso contrário, haverá dificuldades na formatação dos produtos e serviços para traduzir o posicionamento escolhido, e a empresa cairá no lugar comum da concorrência, sem diferenciais consistentes.

Empresas bem posicionadas, com propostas de valor claras, sempre têm maior capacidade de enfrentar as turbulências do mercado, muitas vezes saindo ainda mais fortalecida em sua atuação frente aos diferentes públicos com os quais deve lidar.

A aplicação do pensamento estratégico frente à atual crise financeira é essencial para gerenciar as diversas dimensões desse período de maior instabilidade, conjugando adequadamente as necessidades de seus clientes com os potenciais e competências internas à organização. É compreender a essência das mudanças e não apenas reagir às suas conseqüências.

Aqui, cabe o questionamento: com que eficiência sua empresa tem aplicado o pensamento estratégico para lidar com a atual crise financeira global?

 

3 respostas para O pensamento estratégico frente à crise financeira global

  1. Paula disse:

    Olá, após ler esta matéria, que inclusive é muito interessante, fiquei a procura de uma definição de pensamento estratégico. Será que vocês que elaboraram a matéria conseguem uma definição, com base em uma pessoa especializada, no assunto?
    Obrigada, desde já pela atenção!

    • Luciano Vicenzi disse:

      Olá Paula, sua pergunta é muito pertinente embora não seja tão simples de se responder. Talvez o único consenso a respeito do tema estratégia é a inexistência de uma definição consensual. Para se ter uma ideia, Henry Mintezberg em parceria com Joseph Lampel escreveu um artigo intitulado “Reflexões sobre o processo estratégico” em que apresentam 10 escolas diferentes na abordagem quanto ao tema, desde a estratégia como “posicionamento” até a estratégia como uma “configuração”. Entretanto, para não deixá-la sem resposta, te repasso a abordagem utilizada no livro “Pensamento Estratégico” de Michael A. Cusumano e Constantinos C. Markides: “o pensamento estratégico eficaz é um processo que exige questionamentos constantes e grande criatividade na abordagem dos problemas. Assim, formular corretamente as perguntas é, geralmente, mais importante do que encontrar uma “solução”. Ver a questão de diferentes ângulos em geral é mais produtivo do que coletar e analisar uma quantidade ilimitada de dados. E a experimentação de novas ideias muitas vezes é mais importante do que a análise e a discussão críticas”. Como se pode ver Paula, a forma de interpretarmos os cenários e como criamos opções para competir num determinado mercado estão na base desse tipo de pensamento. Quem sabe, em futuro próximo exploramos mais esta questão em novo artigo. Obrigado pela participação!

  2. Paula disse:

    Muito obrigada pela atenção. Foi de grande importancia o conhecimento adquirido.

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